25.8.05
Torpor Digital
São cinco horas da manhã. Gil acaba de adentrar a sua décima quinta hora de navegação na internet. Sandra levanta da cama pra beber água e na volta, começa a fitar os detalhes do seu corpo. Tenta decifrar a semântica de seus músculos mas acaba se atrapalhando na ênfase abdominal. Quando novamente se concentra e fixa-se em sua expressão facial, percebe que Gil entrou num estado de torpor digital.
No dia seguinte, em seu trabalho, a designer comenta:
----Meu domingo foi um tédio. Não fiz nada interessante. Você é que deve ter se divertindo ----dirigindo-se a Sandra ----Só os solteiros não fazen nada no domingo.
----Ontem eu assisti o Domingo Legal e o Fantástico. Meu marido passou o dia na internet ----falou com um certo ar de conformismo.
----Com um marido daqueles em casa e você deixa ele na net?
Preferiu continuar seu trabalho, pensando nos próximos eventos que estavam se aproximando. Seu chefe a incumbira de toda a produção, talvez um teste para decidir quem seria o sucessor do Gerente, que iria fazer uma especialização na Espanha. Continuou com seu afazeres epistolares até o fim do dia. Gil já a esperava no carro, em frente à produtora.
----Meu bem, o que você viu na internet de tão interessante ontem? Você parece que estava hipnotizado...
----Vi uns e-mails e algumas fotos que o Netto me mandou ----respondeu desleixadamente.
----Eu acho que depois que você instalou aquela internet predial, você parou de me procurar...
----Mas você dizia que eu não pensava em outra coisa, que já estava se entedianto e tudo mais...
----Tudo mais?
----Mmmf... ----respirou profundamente. Colocou a mão na perna dela, no intuito de demonstrar que ainda havia interesse. No semáforo, procurou um CD de músicas românticas e colocou no aparelho. Ela começou a ceder.
----Que tal se a gente viajasse no fim de semana? ----ela já estava sorrindo. Ele parou bruscamente o carro.
----Ficou maluca? ----gritando ----Desça já do carro!
----Mas...
----Desça, senão eu desço!
Saiu do carro, tomou um taxi e foi pra casa. Quando ela chegou, o computador não estava mais lá. Nem ele. Não podia conceber que existisse um fim-de-semana em que se privasse de entrar no estado de torpor digital.
